sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Justina

Joana, filha de uma prostituta, visita a campa da sua mãe, pouco tempo depois de ela própria ser mãe. Dividida entre o amor e o ódio, tenta perceber porque é que ela optou pela “vida”; se para cuidar dela ou se a certo ponto ela estava tão embrenhada na prostituição que nunca tomou outras vias. Sob a campa de sua mãe, Justina, sua filha Joana reflecte agora.
A casa de prostituição, era destinada a angariar moeda. No acto participavam funcionários de várias categorias. Ali ela representava a sua arte, exercia o seu ofício. Dela os outros sabiam muito pouco.
Á noite, cozinhava as suas amarguras no caldeirão do seu pequeno apartamento. Nojento. Numa receita de lágrimas que se misturavam com a sopa.
Via a “vida”, como a atribuição de uma sentença de morte. Valia mais morrer do que ver-lhe ser retirada a dignidade.
( Justina, tenho pena de ti, mas tu não tinhas pena de ti própria. Já não existias e os outros não te viam. Eras cruel contigo própria, mãe )
Os porcos, estacionavam os carros de alta cilindrada e entrava. Meras identidades. Justina, ensaiava todos os seus movimentos, era a ferramenta do seu trabalho.
( Mãe, contavas-me que muitas vezes, passavam mirones nos quartos e era como se milhões de luzes apontassem na tua direcção exponenciando o acto )
Alguns dos clientes, eram surpreendentemente dóceis. Pediam carinhos, companhia e ternura. Vitimas da solidão, tu e eles. Os outros rebaixavam-te, violentavam-te e espancavam-te. No fim, mandavam algumas moedas para o chão – nunca mais paravam de rodopiar e tilintar na tua cabeça – chamavas-lhes, os “moedeiros” e eram de evitar.
Todos os dias te pesavas na balança, como que para continuar atraente para os clientes. Uma rotina que detestavas e não percebias porque o fazias.
Todas as noites escrevias uma mesma frase no teu Caderno Negro:
( Amanhã será um novo dia )
Não eram os anos que contavam para ti, mas o número de Cadernos Negros, que já tinhas preenchido. Tantas linhas, páginas, folhas... Na manhã seguinte compraria outro.
Punhas-me a salvo, a dormir numa das divisões da casa. Adormecia ao som de grunhidos e um arfar descontrolado.
( Perdoo-te mãe, apesar de não te perdoares a ti própria. Agonizo na dor que sentiste quando todos entraram dentro de ti e te destruíram. Neste momento, tu entraste dentro de mim. Mãe, encheste-me de amor )
Só agora percebo o que se passou.

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