sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mãe-Coragem

Fugiu ainda petiz, para ver se era feliz.
Mas nessa vida de errância
Cedo descobriu que a infância, à muito nada lhe diz.


Como herança ficou a vontade
E uma eterna saudade
De retorno à Sua-Terra,
Decorada pedra a pedra, imaginada árvore a árvore


Ao voltar à Sua-Terra de criança
No íntimo guardava a esperança
Que o gaiato agora crescido
Ao menos tivesse esquecido, o palco daquela matança


Parece que de lá nunca tinha saído
Mas mesmo tendo partido
Guardava dessa infeliz infância
As sábias palavras do primo
“És puto de coragem, não te dês já por vencido ”


Pois era assim que se via
Era só assim que sorria
E o infante fez-se por esse mundo
essa elipse esse palacete
Caminhou, palrou e cantou, ao lado de muita gente


Caiu também muitas vezes
Padeceu de inúmeras febres
Tomou colo em algumas mulheres
donzelas que lhe apaziguaram medos, angústias, memórias eternas


Mas os gritos daquela manhã
O gatilho e o cheiro a vinho
Jamais serão esquecidos
Quando o viu matar o outro filho






Eram dois os irmãos
Ele mais o caçula
Mas o marido daquela mula
Seu pai que queria esquecer
Deixou-o na eira sem rumo a ver seu irmão morrer


E ela ali parada
A ver-se desventrada
Sentia-lhe ódio igual
Àquele do que empunhava a arma


Ò Mãe, faltou-te a coragem, de enfrentar tamanho malvado
Por isso mãe (a coragem) será para sempre o meu fado.

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