sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Simão

Todos os dias caminhava por aquela estrada esguia, onde os pensamentos fugidios se perdiam por entre o obscuro da mente e aquela via sombria.
Depois de abalar do café da vila já tocado e decidido a desafiar os bólides. Prolongava pela estrada o seu estado ébrio.

“Se ao menos algum me levasse, me atirasse pelo ar.”

O mesmo ar que lhe custava respirar. O mesmo ar que queria deixar de respirar. Cada lufada de ar fresco sabia-lhe a mofo. Todo ele era mofo, ou pelo menos assim se sentia Simão.
A tragédia havia-lhe apresentado a bebida. A tragédia. Já lá vamos à tragédia.
Os automóveis passavam e faziam sinais de luzes. Ele caminhava impávido, via aquelas luzes cercarem-no como pequenas fadas que iluminam o caminho. Sombrio.

“Fadas quais fadas! Não existem fadas na minha vida! Só mofo! Sempre o cheiro a mofo. Se ao menos algum me batesse me elevasse ao ar, ao céu. Isso queria eu. Era elevar-me ao céu de uma vez e deixar esta vida. Evitar a vida.”

Sentia-se consumido pela vida e vergado pelos dias que não passavam nem deixavam passar.
Cada viagem ao café do Zé era também uma rotina e um desejo de morte. Um desejo de último passeio terreno era tudo o que pensava na ida e na volta. A ida era cobarde, mas a vinda era encorajada pela bebida. A bebida era o combustível para o desafio da morte com os carros. Caminhava na berma da estrada, naquela linha branca que nos indica quando estamos demasiado fora de estrada, fora de rumo, mais perto do abismo. Aquela era a sua linha entre a vida e a morte. Caminhando em linha recta, continuava assim… mais do mesmo, igual ao que tinha sido a sua vida no último ano, os dias a consumirem-se, a consumirem-no, e ele a consumir os dias como se de uma droga se tratasse. Aquela linha branca era isso, era a continuação desse marasmo, desse sufoco, desta prisão.

“Porque não termina de vez este pesadelo. Esta dor lancinante.”

Passar para o lado de dentro da linha e ser colhido por um carro significava a paz da morte e o fim da dor. O além-túmulo era o que lhe mais apetecia.
Passar para o lado de fora da linha era optar pela vida e a vida para ele era o abismo.
Era noite, sempre que regressava a casa. Fazia por se aglutinar no breu da noite para regressar a casa. Em casa nada o esperava. Às vezes queria perder-se na noite, mas conhecia por demais a sua terra. Era impossível perder-se na sua terra.

E de repente um impacto profundo e uma dor física insuportável. O colapso.

“A morte, por favor a morte que tanto esperava.”

Gabriela, saiu do seu carro com uma temerosa certeza.

“Matei este homem. De certo morreu. Não o vi! De onde surgiu? Eu não ultrapassei a linha branca para fora.”

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