terça-feira, 21 de outubro de 2008

As palavras dos outros: Júlio Resende


" A idade dá-nos, felizmente, falta de paciência para coisas que não têm importância, no conjunto do tempo." Júlio Resende, pintor, in Visão

domingo, 19 de outubro de 2008

As palavras dos outros: Pançada com MEC


Uma verdadeira “pançada” de comer, beber, boa conversa e palavras revigorantes. Algumas pérolas da entrevista de Miguel Esteves Cardoso à Visão.

É o prato que nos identifica melhor (o cozido)?
Não. Talvez pescada cozida, com grelos e um arroz de penca. Um arroz solto, maravilhoso, aguado, como se faz no Porto. Portugal é o país do mundo que come mais arroz. È o que come mais peixe, o que bebe mais álcool, tudo o que seja de comer e de beber nós temos sempre mais, somos uns javardos [risos]! Não h+a mais nenhum povo que coma arroz e batatas no mesmo prato.

(…)

Primeiro foram os fumadores. A seguir são os gordos?
Ser gordo é quase um acto de… fuck you pá!Vão criar impostos para os gordos, é?! As pessoas engordam porque comem demais, é simples! Este é o corpo que mereço, reflecte a minha carreira! Os gordos fazem imensa falta na sociedade. As pessoas podem sempre dizer: “ Eh pá, apesar de tudo não estou como o Miguel Esteves Cardoso” [risos]. Os gordos até fazem dieta, mas só um mês. Depois mandam a dieta à merda e entram na fase do “ ai, eu não devia, mas isto é tão bom!”. O panda só come bambu e é gordo!

(…)

Entretanto, temos um primeiro-ministro que faz jogging e promove a mentalidade higiénico-sanitária…
O Sócrates é um gajo que fumou ás escondidas. Eu não fumo, mas um gajo que fuma ás escondidas é cool.

(…)

Comida e sexo, misturam-se?
Não, não gosto daquela coisa à Nove Semanas e Meia, de pôr azeitonas no umbigo e febra na coisa. Mete-me nojo [risos].

Comigo as crianças vão sempre atrás


Atente-se na foto central...
Barroso - "Também posso ir?"
Sarkozy - "Sim, mas só se fores no banco de trás e caladinho!"
Bush - "Eih, yiiiaaaa!!"

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Lisboa ao RX


Lua ao RX


Ataque de pânico


quarto escuro

O cheiro do álcool enche o compartimento,
Misturou-se no ar com os meus pensamentos
A química instalou-se fatalmente,
Neste prematuro cadáver, antes doente.

Ainda me lembro do livro que li, quando pereci.
O mesmo de quando te vi.
A vontade que se assumia era de escrever,
Inspirado pela força da tua presença,
dos teus olhos amendoados,
dos teus lábios molhados.

A luxúria invadiu-me,
Saboreei a tua boca,
Unimos-nos por entre as velas.
Nos contornos do teu corpo apaziguei o meu.
Apaguei o turbilhão em mim latente.
Para logo acender outro diferente.

És o retorno ao leite materno.
Mas decoraste-o de sensualidade
Assim me sinto vivo.
Se calhar isto é viver.
Se calhar isto é amar.
Dentro de ti, sinto-me vivo,
Como minha mãe, me sentiu vivo, no seu ventre
Preservar esta existência.
No meio de tanta carência.

E, guardei o livro.
E, guardei o teu retrato.
E, num estado de alcoolemia, deixei-me morrer

Poder

O poder instalou-se sem contestação.
O conformismo assume a proporção,
De um gigante aterrador.

Ele anestesiou o povo.
Nada é de questionar.
É tempo de dormir?
Não! É tempo de acordar!

Mas, ele manchou toda a arte,
promoveu a apatia.
Ligou a televisão,
Atribuiu-lhe sabedoria.
Onde tudo soa verdade.
Abriu a porta da alegria.
Nem tudo é aquilo que parece.
Nem tudo merece ser dito.Nem tudo merece ser escrito.

Grito de dor

Se conseguisse expelir o ódio que sinto,
o vale seria engolido.

Quando simulas fraquejar, e, te, ameaças suicidar, sinto que não disse tudo,
E, apetece-me continuar.
Sei que a dialéctica não tem fim
Mas, não quero prolongar a dor.

Agora que a calma me ocupa
E que tudo passou,
Sinto-me na mesma
Mas, sei que tudo mudou.

Utopia do Amor

À deriva na cidade
Por entre as luzes do progresso
Procuro a liberdade
De um caminho sem regresso.

Tudo dorme acordado
Inerte aos abanões
Nascer, viver e morrer
Num mundo de ilusões.

O cheiro pérfido no ar
E a fugaz sensação de pudor.
Tudo se perde somente
Na passagem de um corredor.

Há portas de par em par, num infindável mundo de cores,
Difícil, é encontrar rumo
Nesta pequena casinha de horrores

Mas, depois, sorris …
Toda uma imagem se apresenta.
É o coração que me tenta.
É a utopia de ser feliz.

Oú-Mun

Sozinho com a solidão
Olho, Oú - Mun, de perto, de cima.
Por entre árvores que contrastam o seu verde,
Com o cinzento do cimento
E o nevoeiro do tormento.
Fotografo na minha existência
Imagens de aparência.
Os prédios que beijam os céus.
As árvores que se sentem poucas.
O desassossego acomoda-se
É tempo de partir

Inquietação

Ouço a voz melodiosa e inquietante
Voz que me avisa e que me faz crer
Criança que não tenho dentro de mim
Mas que posso imaginar dentro de outro ser.

Sinto no silêncio, os poemas realistas
Sentimentos, sensações
(a euforia)
Palavras que apelam ao meu interior
Trazem o cheiro da maresia.

Necessito de acreditar.
De ter a certeza de alcançar.
Mas sinto o pesar
Sinto o pesar do vazio.

Mãe-Coragem

Fugiu ainda petiz, para ver se era feliz.
Mas nessa vida de errância
Cedo descobriu que a infância, à muito nada lhe diz.


Como herança ficou a vontade
E uma eterna saudade
De retorno à Sua-Terra,
Decorada pedra a pedra, imaginada árvore a árvore


Ao voltar à Sua-Terra de criança
No íntimo guardava a esperança
Que o gaiato agora crescido
Ao menos tivesse esquecido, o palco daquela matança


Parece que de lá nunca tinha saído
Mas mesmo tendo partido
Guardava dessa infeliz infância
As sábias palavras do primo
“És puto de coragem, não te dês já por vencido ”


Pois era assim que se via
Era só assim que sorria
E o infante fez-se por esse mundo
essa elipse esse palacete
Caminhou, palrou e cantou, ao lado de muita gente


Caiu também muitas vezes
Padeceu de inúmeras febres
Tomou colo em algumas mulheres
donzelas que lhe apaziguaram medos, angústias, memórias eternas


Mas os gritos daquela manhã
O gatilho e o cheiro a vinho
Jamais serão esquecidos
Quando o viu matar o outro filho






Eram dois os irmãos
Ele mais o caçula
Mas o marido daquela mula
Seu pai que queria esquecer
Deixou-o na eira sem rumo a ver seu irmão morrer


E ela ali parada
A ver-se desventrada
Sentia-lhe ódio igual
Àquele do que empunhava a arma


Ò Mãe, faltou-te a coragem, de enfrentar tamanho malvado
Por isso mãe (a coragem) será para sempre o meu fado.

O Barqueiro

O barqueiro que ligava o rio
Viu a ponte tomar o seu lugar
Pensou trocar o rio pelo mar
O barqueiro que ligava o rio


O barqueiro que ligava o rio
Ficou sem o seu sustento
Ficou sem alimento
O barqueiro que ligava o rio


O barqueiro que ligava o rio
Viu substituir as conversas
Viu vidas viradas ás avessas
O barqueiro que ligava o rio


O barqueiro que ligava o rio
Tinha orgulho em seu bote
Tinha orgulho em seu dote
O barqueiro que ligava o rio


O barqueiro que ligava o rio
Nunca tinha aprendido a nadar
Nunca tinha ansiado mergulhar
O barqueiro que ligava o rio


O barqueiro que ligava o rio
Certo dia apareceu a boiar
“ Ó barqueiro ligas o rio a quê?”
“Meu amigo, ligo o rio ao mar!”

Homem Kafkiano

Um homem sem mácula de pecado
Amado por todos e tudo
Fora assim desde o útero
Sua mãe lhe deixara o recado
“ Por cada lágrima vertida há sempre um anjo que jaz”


E de repente, transformou-se num anjo
As asas rasgaram-lhe a pele
Os homens cortaram-lhe as asas
Em carne viva ficou o arcanjo
“ Por cada anjo que morre outro se levantará”


E de repente, transformou-se em escaravelho
Num ser peçonhento a que deitavam comida
(Kafka)
Fazia parte de uma história esquecida
Pintada a tons de ogre e vermelho
“ Por cada vida perdida outra renascerá”


E de repente, interrogava-se do porquê
Porque perecia de vida e d`alma?
Porque permanecia agora pó?
Respondeu-lhe logo o Senhor:
“Será que o senhor não vê, que o Homem não renasce quando vive uma vida Só”

Primavera de Outono

Ver cair as folhas dos ramos
sentir que caem sobre ti
castanho outonal que se sacia do teu brilho


Ver-te passar assim de repente
sentir arder por dentro
Volúpia, pura volúpia


Ver que o amor me foge
Sentir que o desejo me atraiçoa a alma
Que negra de doença fica


Sinto o cenário estático
Só corre a tua imagem
Apenas caí a folhagem


Sinto a letargia do abandono
Sinto que foges ligeira
Colina acima, numa ansiedade


Sinto a perda do que nunca tive
Como se de ficção se tratasse
O sentimento do prosador pela lente do realizador


Sinto a paixão arrancar-me do universo da sanidade
Fustiga-me a loucura, que perdura sem ternura
Nesta carcaça enferma


Ver que não me vês
Sentir que não me sentes
Por isso sou doente

Humanismo & Religião

Talvez, aquilo que mais comummente se atribui aos humanistas, seja a dignificação da Natureza e ultimamente a valorização do Homem.
O Homem através da sua razão e vontade, pode valorizar e chegar por si a Deus; defesa inequívoca da liberdade humana enquanto esta está orientada para o bem.
Também abordavam a ideia de um renovamento religioso, no sentido de adoptar uma atitude mais activa, reflectida e introspectiva. Lourenço Valla neste contexto, assume mesmo o confronto ao sacramento de tomar votos, como se isso por si só conseguisse levar o indivíduo a amar e atingir Deus. Valla acreditava que todos aqueles que dedicavam a sua vida a Deus eram religiosos, se a sua atitude fosse a correcta e direccionada para o bem podia atingir-se Deus; na sua mensagem está implícita uma abnegação de individualidade sem recorrer a intermediários, por isso mesmo, refere que uma vez que as Escrituras estão explícitas, cabe ao indivíduo ir às fontes e recolher a informação, já que não vê no aparelho escolástico, ou noutro tipo de intermediários, qualquer atitude para adulterar a mensagem, nesse sentido opõe-se a todo o tipo de interpretação da ideia original. Ainda no âmbito do renovamento religioso, consideravam imperioso existir uma estreita ligação entre a Filosofia e a Teologia. A Filosofia como o Cristianismo serviam para analisar mais validamente o mundo e aborda-lo de uma forma pura e verdadeira, nesse sentido as duas correntes serviam para melhorar o desempenho do Homem. Pico della Mirandola alude mesmo a uma harmonização entre a rathio philosophica e a ratio theologica para melhor avaliar as causas do processo da natureza, a razão do Universo e do Homem, os conselhos de Deus.
Apesar de ambos inserirem o seu pensamento num objectivo a atingir a perfeição religiosa – condenavam a associação da ideia de pecado à liberdade de pensamento, que era imposta pelo cristianismo.
Pelo que podemos concluir que a Religião dependente encurta a Razão.

Bush

“Shame on you Mr. Bush, shame on you.”

O estado de Ser

Atenção o ser humano é uma espécie em vias de extinção!
Aliás, no seu propósito, o ser humano extinguiu-se. O ser humano extinguiu-se, não na sua presença física, que nos prolonga no tormento diário, mas em espírito, em ideais e em acções.
Esgotou-se a esfera de acção que o desígnio universal nos concedeu, e esgotou-se a paciência, para ti, para mim e para nos aturarmos uns aos outros.
A distância com que nos olhamos hoje, é fruto de um processo de afastamento proporcional, ao chamado “Processo de Desenvolvimento”. Ora, acredito piamente, que não nos desenvolvemos.
Crescemos, multiplicamos-nos, mas não nos desenvolvemos. Desenvolvemos máquinas, doenças, armas(ou teorias sobre elas), “junk-food”, enfim...
Os sentimentos e aquilo que nos tornava realmente diferentes, nomeadamente, o individualismo dentro do colectivo - que tão bem nos ensinou a Grécia Antiga - tornou-se diferente e distorcido. Enquanto, os clássicos se galvanizavam por ajudar o colectivo, porque se o colectivo se desenvolvia também os indivíduos o acompanhavam. Por seu turno, o individualismo que começou a empestar o século XX e se abate sobre o século XXI, têm uma matriz diferente.
Caracteriza-se pelo bem-estar próprio, pela deleitação banal, pelo fascínio fácil. Pelo olhar umbilical em detrimento da esfera universal.
Odiamos-nos uns aos outros!
Os cristão que se inserem neste lema do presente, possivelmente terão esquecido a palavra do Senhor - “Amai-vos uns aos outros.”Sem paralelismos forçados, Jesus Cristo, podia muito bem ter sido uma figura rock dos anos 60, que pregava Paz e Amor, advogando a igualdade entre irmãos. No entanto, a História, ao contrário dos “libertos” ou “libertinos” “hippies”, quis transformá-lo num ditador que impôs a sua doutrina e castrou - intelectualmente falando - os seus seguidores

Coragem

O sentimento de pertença ao grupo, leva-nos a tomar e impregnar acções, que não cometeríamos se nos encontrássemos no refúgio do nosso casulo.
O acto de coragem, portanto, só se identifica com o individualismo e as situações extremas. Isto é, só podemos falar verdadeiramente em coragem quando, fazemos algo em nossa prol ou em prol de outros, demonstrando com isso uma dimensão superior e não de mesquinhez. Não é corajoso, quando rodeado de um grupo de amigos, sovar outro infeliz, ou roubar alguém quando se tem as “costas quentes”, ou invadir um país só porque se tem o maior exército do mundo.A coragem verifica-se, numa situação de adversidade ou inferioridade numérica. Não olhar a meios para cumprirmos com aquilo que a nossa consciência nos dita. Coragem é lutar pelo seu país. Coragem é ter um filho, mais ainda, nos tempos que correm. Trazer uma criança para Este Mundo é um acto de coragem. Coragem é manter ideais de solidariedade e preocupação pelo próximo neste mundo que cada vez nos afasta mais do nossos irmãos. Coragem é, procurar ser ambicioso intelectualmente e não materialmente. Porque o dinheiro só deve existir para nós na proporção em que não tenhamos de pensar nele, ou seja, quanto temos pouco aniquilamos o nosso tempo a pensar em formas de o esticar e rentabilizar; quando temos muito e somos abastados, perdemos o nosso tempo, a pensar como o havemos de proteger dos outros e novas formas de ganhar mais

Conto de Encantar

No reino das Palavras cabiam não só as Letras, como as Sílabas e os Acentos. Sabia-se que as primeiras formavam um exército de 23, e que recebiam ajuda do movimento separatista das Estrangeiradas: K W Y.
( ponto parágrafo )
A sua luta era constante e diária contra os Iletrados, esse bando de energúmenos, liderados pelo Calão. Esse povo violento – os Iletrados - de cada vez que davam calinadas na Ortografia, era como se atacassem, todo o reino das Palavras. Isto, pelo simples facto de que a Ortografia, era a lei deste reino, era ela que punha os pontos nos iis.
( ponto parágrafo )
Eram regentes deste reino, o rei Civismo e a rainha Liberdade, que viam os seus filhos Direitos, constantemente ameaçados pela malvadez da bruxa Política. A bruxa má, estava decidida a não os deixar crescer, uma vez que a sobrevivência de apenas um deles permitiria a criação do real estado de Direito, e ameaçaria toda a lógica da Política. Fazia, por isso, parte do seu plano maquiavélico, instigar os Iletrados com falinhas mansas e obrigando-os todos os dias a ingerir uma poção mágica, a que chamava Demagogia. Essa poção, fazia o povo dos Iletrados sentir-se como se de mais nada necessitasse para viver, limitando-se a existir, como se não precisasse do reino das Palavras. Estavam pois, determinados a destruí-lo.
( ponto parágrafo )
Não só a Política tinha encantado os Iletrados, como havia criado um bando de duendes fantasmagóricos – os Partidos Políticos – que tinham como missão rotular os habitantes do reino e eliminar algumas Palavras: a Opinião Própria e os Independentes.
( ponto parágrafo )
Chegado o dia da grande Batalha, os exércitos gladiaram-se numa guerra sangrenta, que chacinou Meses, Anos, talvez Séculos.
( ponto parágrafo )
Contudo, no fim, prevaleceu a vitória das Palavras, para a qual muito contribuiu, a organização métrica das Sílabas, contra a desorganização do exército dos Iletrados. Morto o Calão, queimada a Política e enterrados os Partidos Políticos, foi possível a muitos dos dissidentes regressar. Regressou a Paz, a Livre Escolha, a Razão, o Respeito e até foi possível, ver algumas Lágrimas voltarem do reino distante da Felicidade.
( ponto parágrafo )
A vitória das Palavras depressa acordou outros reinos assombrados pela Política e todos decidiram trabalhar para um mundo melhor, que baptizaram de Utopia. E viveram felizes para sempre.
( ponto final )

Justina

Joana, filha de uma prostituta, visita a campa da sua mãe, pouco tempo depois de ela própria ser mãe. Dividida entre o amor e o ódio, tenta perceber porque é que ela optou pela “vida”; se para cuidar dela ou se a certo ponto ela estava tão embrenhada na prostituição que nunca tomou outras vias. Sob a campa de sua mãe, Justina, sua filha Joana reflecte agora.
A casa de prostituição, era destinada a angariar moeda. No acto participavam funcionários de várias categorias. Ali ela representava a sua arte, exercia o seu ofício. Dela os outros sabiam muito pouco.
Á noite, cozinhava as suas amarguras no caldeirão do seu pequeno apartamento. Nojento. Numa receita de lágrimas que se misturavam com a sopa.
Via a “vida”, como a atribuição de uma sentença de morte. Valia mais morrer do que ver-lhe ser retirada a dignidade.
( Justina, tenho pena de ti, mas tu não tinhas pena de ti própria. Já não existias e os outros não te viam. Eras cruel contigo própria, mãe )
Os porcos, estacionavam os carros de alta cilindrada e entrava. Meras identidades. Justina, ensaiava todos os seus movimentos, era a ferramenta do seu trabalho.
( Mãe, contavas-me que muitas vezes, passavam mirones nos quartos e era como se milhões de luzes apontassem na tua direcção exponenciando o acto )
Alguns dos clientes, eram surpreendentemente dóceis. Pediam carinhos, companhia e ternura. Vitimas da solidão, tu e eles. Os outros rebaixavam-te, violentavam-te e espancavam-te. No fim, mandavam algumas moedas para o chão – nunca mais paravam de rodopiar e tilintar na tua cabeça – chamavas-lhes, os “moedeiros” e eram de evitar.
Todos os dias te pesavas na balança, como que para continuar atraente para os clientes. Uma rotina que detestavas e não percebias porque o fazias.
Todas as noites escrevias uma mesma frase no teu Caderno Negro:
( Amanhã será um novo dia )
Não eram os anos que contavam para ti, mas o número de Cadernos Negros, que já tinhas preenchido. Tantas linhas, páginas, folhas... Na manhã seguinte compraria outro.
Punhas-me a salvo, a dormir numa das divisões da casa. Adormecia ao som de grunhidos e um arfar descontrolado.
( Perdoo-te mãe, apesar de não te perdoares a ti própria. Agonizo na dor que sentiste quando todos entraram dentro de ti e te destruíram. Neste momento, tu entraste dentro de mim. Mãe, encheste-me de amor )
Só agora percebo o que se passou.

As palavras dos outros: Eduardo Lourenço I

Provavelmente se tivesse ficado cá (n.a Portugal) não teria tanta distância e tanta objectividade. Penso que foi, também, a minha maneira de não perder Portugal, de estar cá não estando. Nesse tempo o Portugal perdido tinha duas significações: uma expatriação ou uma fuga mais ou menos voluntária e outra a de um Portugal que, por outras razões, era muito difícil nós considerarmos quer em termos de cidadania e liberdade. Eu vivi este país como uma espécie de prisão como muitos portugueses viveram - não todos. Isso é uma mitologia nossa mas as pessoas estavam aqui muito tranquilas, muito contentes. Portugal também foi feliz naquela época! Não é por acaso que Portugal tem esta fixação no "Pátio das Cantigas". Aquilo é a sociedade Salazarista em estado puro. Quando aquilo passa de novo na televisão, estamos em grande! Este Portugal não foi assim tão infeliz - era infeliz para quem não estava com o sistema

por Eduardo Lourenço

Simão

Todos os dias caminhava por aquela estrada esguia, onde os pensamentos fugidios se perdiam por entre o obscuro da mente e aquela via sombria.
Depois de abalar do café da vila já tocado e decidido a desafiar os bólides. Prolongava pela estrada o seu estado ébrio.

“Se ao menos algum me levasse, me atirasse pelo ar.”

O mesmo ar que lhe custava respirar. O mesmo ar que queria deixar de respirar. Cada lufada de ar fresco sabia-lhe a mofo. Todo ele era mofo, ou pelo menos assim se sentia Simão.
A tragédia havia-lhe apresentado a bebida. A tragédia. Já lá vamos à tragédia.
Os automóveis passavam e faziam sinais de luzes. Ele caminhava impávido, via aquelas luzes cercarem-no como pequenas fadas que iluminam o caminho. Sombrio.

“Fadas quais fadas! Não existem fadas na minha vida! Só mofo! Sempre o cheiro a mofo. Se ao menos algum me batesse me elevasse ao ar, ao céu. Isso queria eu. Era elevar-me ao céu de uma vez e deixar esta vida. Evitar a vida.”

Sentia-se consumido pela vida e vergado pelos dias que não passavam nem deixavam passar.
Cada viagem ao café do Zé era também uma rotina e um desejo de morte. Um desejo de último passeio terreno era tudo o que pensava na ida e na volta. A ida era cobarde, mas a vinda era encorajada pela bebida. A bebida era o combustível para o desafio da morte com os carros. Caminhava na berma da estrada, naquela linha branca que nos indica quando estamos demasiado fora de estrada, fora de rumo, mais perto do abismo. Aquela era a sua linha entre a vida e a morte. Caminhando em linha recta, continuava assim… mais do mesmo, igual ao que tinha sido a sua vida no último ano, os dias a consumirem-se, a consumirem-no, e ele a consumir os dias como se de uma droga se tratasse. Aquela linha branca era isso, era a continuação desse marasmo, desse sufoco, desta prisão.

“Porque não termina de vez este pesadelo. Esta dor lancinante.”

Passar para o lado de dentro da linha e ser colhido por um carro significava a paz da morte e o fim da dor. O além-túmulo era o que lhe mais apetecia.
Passar para o lado de fora da linha era optar pela vida e a vida para ele era o abismo.
Era noite, sempre que regressava a casa. Fazia por se aglutinar no breu da noite para regressar a casa. Em casa nada o esperava. Às vezes queria perder-se na noite, mas conhecia por demais a sua terra. Era impossível perder-se na sua terra.

E de repente um impacto profundo e uma dor física insuportável. O colapso.

“A morte, por favor a morte que tanto esperava.”

Gabriela, saiu do seu carro com uma temerosa certeza.

“Matei este homem. De certo morreu. Não o vi! De onde surgiu? Eu não ultrapassei a linha branca para fora.”

Leitura I

Mendanha, Victor, Conversas com Agostinho da Silva

Peixoto, José Luís, Uma Casa na Escuridão

Platão, Fédon

Tavares, Miguel Sousa, Não te deixarei morrer, David Crockett

Cabral, João de Pina, Erros Velhos

Christiane, F. , Os filhos da Droga

Keulis, Yvonne, A mãe de David

Kafka, Franz, A Metamorfose

Tavares, Gonçalo M, Jerusalém

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A Angústia do Medo

Existem maior número de coisas que nos fazem medo do que coisas que nos fazem mal. Frequentemente, é a opinião, não a realidade, que nos aflige. Não emprego aqui a linguagem do estoicismo, mas a do mundo, de tom menos elevado. Sustentamos, nós os estóicos, que todas as afecções que arrancam ao homem gemidos e urros de dor não passam de desprezíveis bagatelas. Mas deixemos de lado palavras tão elevadas e, não obstante, oh! grandes deuses! tão verdadeiras. O que te aconselho é que não te faças infeliz antes do tempo, pois os males cuja aparente eminência te faz tremer nunca virão, talvez, e, em todo o caso, ainda não vieram.Assim, pois, ora as nossas angústias não são proporcionais à causa; ora ultrapassam os efeitos da causa; ora são absolutamente sem causa. Costuma-se exagerar a dor; antecipá-la; forjá-la.

Séneca, in "Cartas a Lucílio"

O Manuel continua Alegre

Quando Manuel Alegre concorreu à Presidência da República tive a oportunidade de publicar no seu site o seguinte texto:

Será que estamos disponíveis?

Confesso que sim…fiquei entusiasmado quando ouvi Manuel Alegre começar o seu comunicado para abordar as presidenciais.
Estava como sempre fazendo outras coisas e “ouvindo as noticias” quando o tom da sua voz me captou. O tom verdadeiro da sua voz me resgatou a atenção. Senti que estava pronto para a agir. Senti nas palavras de Manuel Alegre uma esperança e simultaneamente, um pontapé na normalidade.

A candidatura de Manuel Alegre não é somente uma candidatura., mas também, uma prova de fogo à capacidade de mobilização de “alguns” portugueses. Estes “alguns” são “aqueles”. Aqueles que se insurgem contra o que de errado se passa com este país e que o pensam. Que o fazem fora da esfera partidária. A candidatura de Alegre vem dar a possibilidade aos portugueses que pensam Portugal no seu círculo de amigos, na sua faculdade, no seu local de trabalho, na sua escola, no seu café ou no seu blog de contribuir para o seu país.

BASTA QUE PARA ISSO ESTEJAM DISPONIVE
IS.

A candidatura de Alegre, pode fazer História. Não, não é necessário que ganhe. Basta que conste como um (talvez o primeiro?) movimento de cidadãos apartidários ou não-filiados em nenhum partido político (ou até mesmo sem voz dentro seu próprio partido político) em 30 anos de democracia portuguesa que se une para disputar umas eleições.

Isso sim será a Utopia. Dentro do sistema democrático. Demonstrará a vontade dos cidadãos. Este espaço é urgente na democracia portuguesa. Este espaço também é justo que se crie em torno de uma pessoa (e não personalidade) que já deu tanto a Portugal, especialmente, a nível intelectual.

Diz-se de Manuel Alegre que começou como um “outsider” nesta campanha. Foi nos lançado um desafio, aos “outsiders” deste país se o sabemos aceitar e vencer, ou se somos “só garganta”...


Não estávamos disponíveis para a mudança na altura e a grande maioria de nós continua, na impassividade, no cúmulo da letargia. Contudo Alegre, continua disponível para os seus concidadão, para honrar o voto dos que o elegeram para a Assembleia da República. Demonstrou-o em duas recentes votações " à laia do partido" - casamentos homosexuais e empréstimo estatal à banca.

É isso que se espera de um polítido - é isso que espero de um político - que seja fiél aos seus prinecipios e não à lógica impossitiva de um partido.

Continuo a acreditar que teríamos um muito melhor Presidente e que estaria muito mais à vontade no Portugal Fashion... pouco embaraçado com o facto de ter as menina a um metro dos seus pés???...

Obama em Portugal???

Ontem enquanto assistia ao derradeiro debate entre Obama e Mccain, e cada vez mais me entusiasmava com o senhor Barack, dei por mim, a pensar em Portugal. Como é ridículo ter uma Assembleia da República de mais de 200 deputados e nenhum negro! Nenhum negro? Pergunto outra vez: “Nenhum negro?”

Bem podem os nossos burgueses partidos falar de «Estado social» e de governarem para todos os portugueses, e de iguais oportunidades e “Novas Oportunidades” e o diabo a sete… Quantos negros são admitidos nas empresas públicas e nos diferentes ministérios? Quantos negros estão na administração de empresas públicas e privadas? Quantos negros existem nas estruturas de partidos?

Agora perguntas mais fáceis:
Quantos negros Selecção Nacional de futebol?
Quantos negros no atletismo?
Quantos negros já ganharam medalhas para Portugal?

Quotas para as mulheres e negros não?

P.S. ah e quando vem aquela mençãozinha para enviar CV com fotografia… é só para ver se é apresentável… me engana que eu gosto…